Transtorno de Personalidade em Contexto de AUDHD de Diagnóstico Tardio: Um Relato Anônimo
- Neuroanalisa
- 21 de mai.
- 9 min de leitura
Este estudo de caso apresenta o relato anônimo de um adulto de 27 anos, com quadro compatível com Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e traços de Transtorno do Espectro Autista (TEA), configurando um perfil AUDHD de diagnóstico tardio. A partir do relato espontâneo, busca-se discutir elementos que, além do neurodesenvolvimento, sugerem a necessidade de investigação de possíveis traços de transtorno de personalidade, sem, contudo, configurar diagnóstico, mas sim um exercício clínico-reflexivo.

O objetivo é ilustrar como, em quadros complexos de neurodivergência, podem emergir padrões de funcionamento afetivo, cognitivo e relacional que ultrapassam o escopo exclusivo do TDAH/TEA, exigindo uma escuta cuidadosa sobre identidade, estabilidade interna, manejo de impulsos e organização da experiência subjetiva.
1.Contexto de desenvolvimento e funcionamento atual
O paciente descreve, desde a infância, um padrão de funcionamento marcado por hiperfoco, ansiedade basal e alterações de sono:
“Desde a infância tenho sintomas como hiperfoco no funcionamento mecânico das coisas, em micro detalhes do ambiente ao redor, ansiedade basilar constante, fala acelerada, insônia constante com episódios de sonambulismo…”
Relata também esforço consciente para manter contato visual, com custo de sobrecarga mental:
“o contato visual na hora do diálogo sempre foi mantido por esforço, o que me esgota mais rapidamente gerando sobrecarga mental…”
Esses elementos são compatíveis com um quadro de neurodesenvolvimento (TEA/TDAH), mas já apontam para um funcionamento psíquico cronicamente sobrecarregado, com sensação de “peso mental” e exaustão, que se prolonga até a vida adulta:
“Atualmente, percebo que meu funcionamento mental está muito esgotado.”
No presente, o paciente descreve um cotidiano marcado por hiperfocos que mudam, impulsividade, dificuldade de conclusão de tarefas e forte impacto no funcionamento global: “começo cursos e atividades impulsionado por esse foco, mas não consigo terminar e acabo desistindo, pois o hiperfoco muda de maneira constante. Quando o hiperfoco muda, sinto uma desmotivação profunda e uma exaustão mental muito grande.”
2. AUDHD de diagnóstico tardio e impacto na organização psíquica
Há referência a uma primeira crise intensa de pânico em 2019 e a uma hipótese de TDAH levantada por profissional de saúde, sem continuidade de acompanhamento especializado:
“tive minha primeira crise intensa de pânico… fui informado de que possivelmente eu teria Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade. No entanto, não dei continuidade ao tratamento…”
Mais recentemente, o paciente relata avaliação neurológica com aplicação do ASRS-18:
“obtive pontuação 14 (alto risco para TDAH). O médico confirmou a hipótese anterior de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade e levantou também a presença de traços compatíveis com Transtorno do Espectro Autista.”
Esse percurso sugere um diagnóstico tardio de AUDHD, com anos de funcionamento sem nomeação adequada das dificuldades, o que pode favorecer o desenvolvimento de estratégias defensivas rígidas, crenças negativas sobre si e padrões relacionais disfuncionais.
A saída de uma estrutura religiosa rígida e previsível é descrita como um marco de desorganização:
“removeu a minha maior âncora externa que me mantinha funcionando com uma vida social organizada… me senti muito mais isolado socialmente, e a minha ansiedade social se agravou severamente…”
Aqui, observa-se a importância de estruturas externas rígidas como organizadoras do self e do cotidiano. A retirada dessa âncora expõe fragilidades na auto-organização, o que pode dialogar tanto com o AUDHD quanto com possíveis traços de personalidade que dependem fortemente de referenciais externos para manter coesão interna.
3. Sintomas atuais: além da desatenção e hiperatividade
O paciente descreve um conjunto amplo de sintomas:
“ansiedade generalizada basal, hiperfoco que muda constantemente e que me sobrecarrega, impulsividade, pensamento acelerado, confuso, catastrofização, dificuldade de organizar ideias e manter coerência, rigidez cognitiva…”
Relata ainda:
“tendência a ruminação constante, com preocupação excessiva mesmo diante de situações de baixo risco, sensação frequente de ‘peso mental’ e sobrecarga, além de paralisia por análise.”
Esses elementos são compatíveis com comorbidades ansiosas e depressivas, frequentemente associadas ao AUDHD. No entanto, alguns trechos chamam atenção para instabilidade na manutenção de intenções, contradições internas e falhas na continuidade do self:
“contradições constantes como dizer que quero estudar num dia e negar no dia seguinte; dizer que quero fazer um curso e logo depois afirmar que não preciso ou que não quero, demonstrando instabilidade no pensamento e falha na manutenção de intenções…”
Essa oscilação não se limita à dificuldade executiva típica do TDAH, mas pode sugerir instabilidade de metas, autoimagem e projetos, aspecto que merece investigação em direção a possíveis traços de transtorno de personalidade, especialmente quando associado a sofrimento intenso e prejuízo funcional.
4. Ideação de morte, desorganização e risco
O relato inclui episódios de ideação de morte em contexto de exaustão e desesperança:
“episódios de ideação de morte em momentos de maior desorganização emocional… eu disse frases como ‘se é para viver assim, é melhor morrer’.”
Embora não configure, por si só, um transtorno de personalidade, a presença de ideação suicida intermitente, associada a sensação crônica de falha e sobrecarga, indica um eixo de risco que precisa ser monitorado.
Outro trecho relevante é a descrição de um episódio de comportamento grave, com impulsividade e ausência de filtro social:
“houve um episódio recente em que tive um comportamento grave envolvendo impulsividade, ausência de filtro social e desorganização do pensamento que não condiz com quem eu acredito ser…”
E ainda:
“Tenho consciência de que, se esse tipo de comportamento ocorresse em outros contextos ou com outras pessoas, poderia trazer consequências graves pra mim, até mesmo consequências legais.”
Esse tipo de episódio, vivido como estranho ao próprio self (“não condiz com quem eu acredito ser”), pode apontar para falhas pontuais na integração da experiência, impulsividade de alto risco e possível desorganização do juízo social. Tais elementos, em conjunto, justificam a investigação de:
padrão de impulsividade em diferentes contextos
estabilidade da autoimagem
presença de comportamentos autodestrutivos ou de risco recorrentes
qualidade dos vínculos interpessoais.
5. Padrões familiares e traços de personalidade
O paciente descreve um histórico familiar com múltiplos quadros psiquiátricos:
“Uma prima possui diagnóstico confirmado de Transtorno do Espectro Autista. Um tio meu possui diagnóstico de Esquizofrenia e histórico compatível com Transtorno Explosivo Intermitente… outros familiares com histórico compatível com quadros de desregulação emocional e possíveis traços de Transtornos de Personalidade…”
Esse contexto sugere vulnerabilidade genética e ambiental para quadros de desregulação emocional, impulsividade e possíveis transtornos de personalidade. Embora não determine o diagnóstico, reforça a importância de uma avaliação cuidadosa da organização de personalidade do paciente, para além do eixo neurodesenvolvimental.
6. Trechos que merecem investigação específica de transtorno de personalidade
A seguir, alguns trechos do relato que, em conjunto, justificam investigação de traços de transtorno de personalidade (sem configurar diagnóstico):
Instabilidade de intenções e projetos
“contradições constantes como dizer que quero estudar num dia e negar no dia seguinte… demonstrando instabilidade no pensamento e falha na manutenção de intenções…”
Merece investigação:
a. se há instabilidade também em relações, valores e autoimagem;
b. se essa oscilação gera crises identitárias ou mudanças bruscas de planos de vida.
Episódio de comportamento grave, vivido como estranho ao self
“comportamento grave envolvendo impulsividade, ausência de filtro social e desorganização do pensamento que não condiz com quem eu acredito ser…”
Merece investigação:
frequência de episódios semelhantes;
presença de comportamentos de risco, agressividade, explosões emocionais;
eventual padrão de “atuar” impulsos em vez de elaborá-los.
Dependência de estruturas externas rígidas para organizar a vida
“organização religiosa de rotina rígida e previsível… removeu a minha maior âncora externa… minha ansiedade social se agravou severamente…”
Merece investigação:
se há dificuldade em manter coesão interna sem um “outro” ou uma instituição que organize o cotidiano;
se há medo intenso de abandono, vazio ou desamparo quando essas estruturas se rompem.
Ideação de morte em contexto de sobrecarga crônica:
“se é para viver assim, é melhor morrer.”
Merece investigação:
se há padrão de desesperança crônica;
se a ideação aparece em resposta a frustrações relacionais ou mudanças;
se há comportamentos autolesivos, ainda que não relatados.
Sensação de estranhamento em relação a si mesmo.
“não condiz com quem eu acredito ser, o que me gerou grande desconforto e estranhamento em relação a mim mesmo…”
Merece investigação:
se há episódios de despersonalização, sensação de “não se reconhecer”;
se existem mudanças marcantes de humor, postura ou “modo de ser” em diferentes contextos.
7. Hipóteses clínicas em discussão (não diagnósticas)
Com base no relato, é possível sustentar:
Quadro de AUDHD de diagnóstico tardio
a. TDAH com confirmação em ASRS-18 e avaliação médica;
b. traços compatíveis com TEA (hiperfoco, sobrecarga sensorial/social, esforço em contato visual).
Comorbidades internalizantes prováveis
- sintomas compatíveis com Transtorno de Ansiedade Generalizada, episódios de pânico, anedonia e ruminação;
-possível quadro depressivo associado à cronicidade do sofrimento e às dificuldades funcionais.
- Necessidade de investigação de traços de transtorno de personalidade; instabilidade de intenções e projetos;
- episódios de impulsividade grave e desorganização;
- dependência de estruturas externas rígidas;
- ideação de morte recorrente em contexto de sobrecarga;
- estranhamento em relação a comportamentos próprios.
Importante ressaltar que não se trata de diagnóstico, mas de um convite à investigação longitudinal, em ambiente clínico, da organização de personalidade, considerando:
padrão de relações interpessoais;
estabilidade da autoimagem;
manejo de afetos intensos;
impulsividade em diferentes áreas da vida.
8. Implicações terapêuticas
Do ponto de vista psicoeducacional e analítico, este caso ilustra a importância de:
nomear o AUDHD de forma clara, reduzindo culpa e autocrítica;
trabalhar rotinas, sono, manejo de hiperfoco e funções executivas;
oferecer psicoeducação sobre comorbidades (ansiedade, depressão, TOC, traços obsessivos);
abrir espaço, em análise, para explorar identidade, contradições internas, episódios de desorganização e padrões relacionais.
A combinação de intervenção medicamentosa adequada (quando indicada) com psicoterapia de base analítica e psicoeducação estruturada pode favorecer:
maior organização do pensamento;
redução da impulsividade de risco;
construção de um senso de self mais estável;
desenvolvimento de estratégias de enfrentamento menos autodestrutivas.
Quais transtornos de personalidade merecem investigação neste estudo de caso?
Com base apenas no relato anônimo, sem exame presencial e sem acompanhamento longitudinal, não é possível afirmar diagnósticos de transtorno de personalidade. Porém, alguns eixos de funcionamento descritos justificam investigação clínica cuidadosa de traços compatíveis com:
Transtorno de Personalidade Borderline (TPB), em nível de traços
A instabilidade de intenções e projetos (“contradições constantes…”), a ideação de morte em contexto de exaustão (“se é para viver assim, é melhor morrer”) e o sofrimento intenso após a perda de estruturas externas rígidas (saída da organização religiosa) sugerem investigar:
a. padrão de relações interpessoais;
b. medo de abandono e sensação de vazio;
c. flutuações de humor e eventual presença de comportamentos autodestrutivos.
Transtorno de Personalidade Esquizotípica, em nível de traços
O próprio relato menciona suspeita de “traços esquizotípicos”, somada a: episódio de comportamento grave, vivido como estranho ao self, com desorganização do pensamento e ausência de filtro social;
histórico familiar de esquizofrenia e desregulação emocional importante.
Esses elementos justificam investigar: experiências perceptivas incomuns, excentricidades persistentes, isolamento social marcado e padrão de pensamento peculiar.
Transtorno de Personalidade Obsessivo-Compulsiva (TPOC), em nível de traços
A suspeita de “traços obsessivos (escrupulosidade)”, associada a ruminação constante, catastrofização, paralisia por análise e rigidez cognitiva, indica a necessidade de explorar:
perfeccionismo excessivo;
necessidade de controle e ordem;
escrúpulo moral que interfira no funcionamento cotidiano.
9. Outros padrões de personalidade em observação
Dada a complexidade do quadro (AUDHD, comorbidades ansiosas/depressivas, histórico familiar carregado), é fundamental manter uma postura avaliativa aberta, observando ao longo do tempo se há organização de personalidade predominantemente ansiosa, evitativa, dependente ou mista, sem precipitar rótulos.
Em todos os casos, trata-se de hipóteses de investigação, não de diagnósticos. A avaliação de transtornos de personalidade exige tempo, vínculo terapêutico, observação longitudinal e integração de múltiplas fontes de informação, preservando o cuidado ético de não reduzir o sujeito a um rótulo único.
Sobre o tempo de investigação em transtornos de personalidade
Diferente de quadros agudos, os transtornos de personalidade não são definidos em uma única consulta ou apenas a partir de um relato. A avaliação exige observação longitudinal, em diferentes contextos de vida, ao longo de meses ou anos, integrando história de desenvolvimento, relações interpessoais, manejo de afetos e padrões de comportamento repetitivos. Por isso, em vez de buscar um “rótulo rápido”, o foco ético é acompanhar o sujeito no tempo, revisando hipóteses e priorizando o cuidado clínico, e não apenas o nome do diagnóstico.
Mais importante que o rótulo, é o cuidado
Em casos complexos como este, o foco principal não é “acertar o nome do transtorno” o mais rápido possível, mas construir caminhos de manejo. Isso inclui combinar medicações prescritas por médicos especialistas com intervenções psicoterapêuticas, exercícios de regulação e psicoeducação. Ao longo desse processo, a pessoa vai se entendendo melhor, nomeando seus padrões, reconhecendo limites e recursos, e aprendendo a cuidar de si de forma mais consciente e responsável.
Na Neuroanalisa, entendemos que, em quadros complexos, o ponto central não é correr atrás de um nome de transtorno, mas construir caminhos de manejo possíveis. Isso envolve articular medicações prescritas por médicos especialistas com intervenções psicoeducativas e exercícios terapêuticos que ajudem na organização do dia a dia. Ao longo desse processo, a pessoa vai se entendendo melhor, reconhecendo seus padrões, limites e recursos, e aprendendo a cuidar de si com mais clareza, responsabilidade e gentileza.
Considerações finais
Este estudo de caso, baseado em relato anônimo, evidencia como um quadro de AUDHD de diagnóstico tardio pode se articular a sintomas ansiosos, depressivos e a possíveis traços de transtorno de personalidade. A leitura cuidadosa de trechos específicos do relato permite levantar hipóteses clínicas que não devem ser tomadas como rótulos, mas como pontos de investigação em um processo terapêutico ético, gradual e respeitoso.
O caso reforça a importância de uma abordagem que integre neurodesenvolvimento, história familiar, contexto social e organização de personalidade, evitando reducionismos e favorecendo um cuidado clínico mais completo e humanizado.


Comentários